Hiroshima
Uma linda e vibrante cidade renascida das cinzas

Hiroshima por ela

Dia 0: That day

Hiroshima acordava em uma manhã de segunda-feira, dia 06 de Agosto de 1945, tentando seguir a vida apesar das restrições que a guerra lá fora trazia a todos… Crianças a caminho da escola, adultos a caminho do trabalho, mães e avós cuidando dos bebês…

Tudo parecia normal, obviamente dentro da normalidade que o estado de guerra traz, e ninguém sabia que aquele dia mudaria para sempre o rumo da história da cidade, do país e do mundo…

Bomba Little Boy
Bomba de urânio Little Boy

Precisamente as 08:15h a bomba de urânio Little Boy foi lançada por um bombardeiro americano, e 44 segundos depois foi detonada a 600m de altura do solo, matando mais de 200.000 pessoas, das quais 70.000 morreram instantaneamente, incineradas.

80% dos mortos eram civis inocentes.

Tudo ardia em chamas, os edifícios, os trilhos do bonde, as pessoas… Hiroshima tinha se tornado um verdadeiro inferno. O ar tóxico e radioativo era irrespirável, mas que opção tinham os sobreviventes a não ser respirá-lo?

Pessoas desesperadas ou em estado de choque tentavam ajudar, mas como se tudo ao redor estava destruído?

2/3 da cidade foram arrasados, mais de 6.000 edifícios viraram pó.

Tudo destruído num raio de 2km do epicentro
Tudo destruído num raio de 2km do epicentro

Dos 45 hospitais da cidade, restaram apenas 3. E 90% dos médicos e enfermeiros foram mortos.

Com isso os feridos que não tiveram a “sorte” de morrer na hora da explosão agonizaram com seus corpos queimados até não terem mais forças para lutar pela vida… ou então morreram nos dias ou meses subsequentes em função das queimaduras e da radiação absorvida pela pele ou inalada pelos pulmões… ou ainda, viveram até o fim dos seus dias com problemas em decorrência desta radiação, ou na expectativa de a qualquer momento ser diagnosticado com algum tipo de câncer…

As mulheres sobreviventes tinham medo de engravidar por não saberem a que seus bebês estariam expostos dentro de seu próprio corpo, e em que condições esses bebês nasceriam…

A geração que sobreviveu, bem como seus filhos, foram “cobaias” para que o mundo soubesse os efeitos a médio e longo prazo da exposição à radiação de armas nucleares…

3 dias depois, em 9 de Agosto de 1945, a história se repetiu na cidade de Nagasaki.

Em 15 de Agosto de 1945 o Japão anunciou sua rendição aos aliados, e em 2 de Setembro de 1945 a Segunda Guerra Mundial foi oficialmente encerrada, com a assinatura formal do termo de rendição.

E 70 anos depois estamos aqui, eu, Rafa e Chico, para vermos ao vivo a nova Hiroshima renascida das cinzas… a cidade simbólica que trouxe a paz para o Japão de uma das formas mais violentas que já se viu…

Dia 1: Destino Hiroshima

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Chico e Rafa capotados no Shinkansen!

Chegamos em Hiroshima as 16h, depois de quase 3 horas de Shinkansen (trem-bala), saindo de Kyoto.

Bondinho (tram) na Hiroshima Station
Bondinho (tram) na Hiroshima Station

A estação central é linda, como todas no Japão, e de lá pegamos um tram, nome dado ao trem elétrico, tipo um bondinho que anda nos trilhos espalhados na cidade. Muito fofo e muito prático!!

Nosso apartamento ficava perto da estação central, somente 4 paradas do tram, e era pequeno e decorado bem no estilo japonês também, como o de Kyoto! Tatami de palha no chão do quarto e futons para dormir. Mas dessa vez os futons eram muito mais confortáveis!

A cozinha era melhor do que na nossa casa anterior, mas uma peculiaridade: não tinha panelas!! Mandei várias mensagens para a dona da casa, mas ela só respondeu que estavam lá em algum lugar! Revirei o apartamento, mas não encontrei. Neste momento agradeci por ter somente 2 noites aqui e por ter trazido comida pronta para o Chico para pelo menos para 1 dia.

Saímos para caminhar nas ruas dos arredores, e vimos que estávamos no meio da muvuca!! A região é super central, muito movimentada, cheia de restaurantes, bares e muitas baladas!!

Restaurante Katcha, especializado no tradicional Okonomiyaki de Hiroshima
Restaurante Katcha, especializado no tradicional Okonomiyaki de Hiroshima

Vimos vários restaurantes com um tipo de lanterna vermelha na frente, e os cozinheiros fazendo um único tipo de comida em uma chapa enorme, e ficamos mega curiosos. Pesquisamos na internet, na rua mesmo com nosso pocket wifi, e descobrimos que este tipo de estabelecimento é muito tradicional em Hiroshima, e então resolvemos entrar para provar. E acabamos comendo uma das melhores coisas que já provamos na vida: o famoso Okonomiyaki de Hiroshima!!!

O restaurante era super familiar, chamado Katcha (na verdade eles pronunciam assim, pois só tem o nome escrito em japonês!), conduzido por um casal super simpático, e a comida era sensacional!! Fora o show do preparo!!

Okonomiyaki é um prato tradicional japonês, mas aqui em Hiroshima é ainda mais especial e típico! É feito com uma camada de uma massa tipo de crepe, muito repolho, bacon, diversos temperos, pimentas, noodles cozidos e salteados na chapa, e no final uma camada fina de omelete pincelado com um molho incrível. E pra completar o charme é servido na própria chapa, no balcão. Você corta com uma pequena espátula e come de joelhos, agradecendo por esta incrível experiência gastronômica e cultural!

Okonomiyaki direto da chapa!
Okonomiyaki direto da chapa!
Imperdível!!! De comer rezando!
Imperdível!!! De comer rezando!

Dia 2: Miyajima e Memorial da Paz

Dia intenso de turismo para aproveitar nosso único dia completo aqui!!

Ritual de limpeza das mãos, boca e mente na entrada do Shrine
Ritual de limpeza das mãos, boca e mente na entrada do Shrine

Saímos cedinho para a ilha de Miyajima, que fica bem perto Hiroshima. Bondinho até a estação central, trem JR Pass até a estação Miyajima (20 minutos), e mais uma balsa rápida ate a ilha.

Miyajima é uma pequena ilha que abriga o Itsukushima shrine, o shrine flutuante, cujo torii gigante fica nas águas que circundam a ilha. A sua construção é feita sobre palafitas, então quando a maré enche ele parece que está flutuando.

O estilo e a arquitetura deste santuário são lindos, para mim o mais bonito que vi no Japão! É inspirado pelo clima da ilha, mais simples e mais despojado, adorei!

Detalhes que fazem o estilo tão especial do Itsukushima Shrine
Corredores e corredores no mais bonito shrine do Japão!
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Detalhes que fazem o estilo tão especial do Itsukushima Shrine
Torii nas águas de Miyajima ao fundo
Torii nas águas de Miyajima ao fundo

Passeamos nas ruazinhas nos arredores do shrine, onde também vimos muitos veados soltos e super acostumados com as pessoas, como os de Nara.

As ruas são bem charmosas, cheias de lojinhas, cafés e restaurantes, e lotadas de turistas!!

Pelas ruas de Miyajima...
Pelas ruas de Miyajima…
Cervos soltos nas ruas e no parque da ilha
Cervos soltos nas ruas e no parque da ilha

Pegamos um táxi até o outro lado da ilha, onde fica um parque muito bonito e uma praia nem tão bonita assim…

Parque de Miyajima
Parque de Miyajima
A praia da ilha não agradou...
A praia da ilha não agradou…

Voltamos para Hiroshima no início da tarde, e pegamos o tram na estação central até o Bomb-dome, no parque Memorial da Paz.

O Parque é lindo e enorme, e fica na região central da cidade.

Lá fica o Bomb-dome, que é o prédio sobre o qual a bomba explodiu a 600m de altura, no fatídico dia relatado no início deste post. Além de ter sido o epicentro da bomba, foi a estrutura que mais resistiu ao impacto da explosão num raio de 2km, e por isso foi mantida como símbolo deste acontecimento.

Ruínas do Bomb-dome, o ponto zero da bomba
Ruínas do Bomb-dome, o ponto zero da bomba

Ver as ruínas deste prédio foi muito emocionante. É tão surreal o que aconteceu aqui, tão inacreditável, que você olha ao redor e não consegue imaginar que uma cidade tão bonita foi reconstruída praticamente do zero depois de tanta dor e destruição. E também não consegue entender a contradição da raça humana, que pode ser tão estúpida mas ao mesmo tempo tem uma força absurda de superação depois de tragédias pessoais ou coletivas.

Conhecemos dois sobreviventes da bomba, um deles era recém-nascido e o outro ainda estava na barriga da mãe, que também sobreviveu. Ele participou de um documentário sobre a bomba de Hiroshima chamado That Day (www.thatdayfilm.com), muito bom!

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Vimos um momento muito emocionante de pessoas fazendo uma oração em frente ao um monumento de homenagem às vítimas da bomba.

Monumento em Homenagem às vítimas da bomba atômica
Monumento em Homenagem às vítimas da bomba atômica

Caminhamos mais pelo parque, admirados com a beleza da cidade, e no fim da tarde voltamos para casa.

Não resistimos e nosso jantar foi novamente Okonomiyaki! No mesmo restaurante!! A forma perfeita de nos despedir de Hiroshima, depois de uma passagem mais rápida do que gostaríamos!

Resumo da minha experiência em Hiroshima:

Tivemos pouco tempo para aproveitar esta cidade tão especial! Mas ainda assim conseguimos ver coisas lindas e muito marcantes na cidade.

Nossa maior surpresa foi o Okonomyaki, um prato típido e muito tradicional, mas surpreendentemente pouco conhecido fora daqui! É sensacional!!!

Isso por si só já quase valeria a viagem, mas a cidade ainda oferece outras belezas e nos propõe algumas reflexões sobre nossa (falta de) humanidade.

Ver ao vivo o ponto zero onde a bomba explodiu 70 anos atrás foi como (re)viver a história que tanto escutamos… Os relatos contados tanto por historiadores quanto por sobreviventes nos fazem repensar nosso mundo, nossa sociedade e nossas atitudes…

Destaques da nossa viagem

– Caminhar pelo Parque Memorial da Paz, vendo todos os detalhes e lendo tudo que for possível sobre os acontecimentos de 70 anos atrás.

– Admirar a beleza da cidade e o fato de ter sido reconstruída do zero depois de uma tragédia sem precedentes

– Visitar o Itsukushima shrine, na Ilha de Miyajima

– E comer Okonomyaki todos os dias da sua estadia aqui!!! O original e inigualável Okonomyaki de Hiroshima!!

Para mais detalhes da nossa experiência com bebê em Hiroshima, contamos tudo lá no ChicoOnTheRoad!

Próxima parada: Kanazawa!

4 Comentários Hiroshima
Uma linda e vibrante cidade renascida das cinzas

  1. Neusa 27 de novembro de 2015 às 11:11

    Que relato mais lindo!!! Adorei!!!

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  2. Gabriela 27 de novembro de 2015 às 14:49

    Adorei! Beijos e boa viagem!

    Responder

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