Pequim, China
Ditadura Sim, Comunismo Não

Pequim por ele

Um país que possui apenas um Partido por mais de 65 anos ininterruptos e que coíbe a livre associação (organizações sociais, empresariais, reuniões e etc.), a liberdade de religiões, a liberdade de imprensa, a liberdade da internet, o livre controle familiar e alguns outros direitos humanos, esse país ou partido não pode ser chamado de Comunista ou Socialista…

E a Ditadura da China se mistura aos péssimos costumes dos cidadãos chineses para se tornar muito provavelmente uma das piores sociedades que irei conhecer nessa vida!

Exatamente durante a nossa passagem por Pequim foi o 66o aniversário da Republica Popular da China, proclamada por Mao Tsé-Tung (ou Mao Zedong) após a vitória do Partido Comunista Chinês na guerra civil vigente na época.

Desde então (1o de Outubro de 1949) a China só conhece um partido, apesar de tecnicamente até existirem outros partidos para tentar camuflar a Ditadura.

Celebração na Praça da Paz Celestial: 66 anos da República Popular da China
Celebração na Praça da Paz Celestial: 66 anos da República Popular da China

Já percebe-se esse ar de Ditadura quando nas ruas se vê muito mais o exército que a polícia.

Para entrar no metro, por exemplo, todas as pessoas precisam passar seus pertences por máquinas de Raio-x, estando sujeitas a serem revistadas também. Ou seja, em todas as estações de metro o braço armado do Estado se mostra presente para toda população. Não deixa de ser também uma forma de intimidação…

A praça da Paz Celestial, a Cidade Proibida (Forbbiden City) e seus arredores são recheados de exército por todos os lados. Quase uma paranóia do governo a fim de evitar um episódio semelhante ao famoso Protesto na Praça da Paz Celestial de 1989. Mas aparentemente todos os chineses que vêm de diversas partes do país para visitarem esses quarteirões imensos, símbolos da China, o fazem com certo orgulho da nação que foi criada a partir de Mao Tsé-Tung.

Panoramic view Heavenly peace
Panorâmica da Praça da Paz Celestial

E ele criou essa Ditadura que permite até hoje direcionar um país inteiro em busca dos interesses do Partido Comunista ou então daquilo que o partido acredita ser o melhor para a China. Isso tudo às custas do controle governamental sobre a vida dos cidadãos (pouquíssima liberdade individual) e com a aplicação de regras e leis que convenham para os objetivos maior do Estado.

Um dos exemplos mais evidentes é a regulamentação dos direitos trabalhistas chinês, visando muito mais o lado do empregador, em busca de uma altíssima produtividade por empregado com baixos custos de mão-de-obra, que transformou a China no maior exportador do mundo.

A essa estratégia do Estado soma-se a questão ambiental, onde a China atingiu o nível de maior emissor de CO2 do Planeta (sem nenhuma sinalização concreta de mudar esse quadro por enquanto), tendo atualmente 40% de todas as suas águas impróprias para consumo humano, entre outros propositais afrouxamento de regras e fiscalização buscando manter um nível de competitividade (ao menos no curto prazo) com larga vantagem contras seus principais concorrentes mundo afora nesses quesitos. E o que falar do ar poluído que o governo permite que toda a população de Pequim respire!? A poluição que enfrentamos nos últimos dias que estávamos lá foi algo inacreditável! E algumas semanas depois da nossa saída soubemos que o índice de poluição do ar atingiu o maior patamar da história. Ou seja, por enquanto, eles continuam não querendo “incomodar” a produção nacional, mesmo que o custo para o povo chinês seja tão alto quanto sentimos nessa cidade, a capital da maior nação do mundo sob uma névoa constante de gases tóxicos.

air polution pequim
Poluição que não se via mais de um quarteirão de distância (vista da nossa janela)

É inegável que nos dias de hoje a vantagem competitiva da China é superior a todos os outros países. Mas para mim está claro que isso não é sustentável. E não me refiro apenas do ponto de vista ambiental e sim de todo esse sistema que foi criado pelo Partido Comunista. Em algum momento futuro haverá uma instabilidade social nesse país de 1,4 bilhões de pessoas que com certeza irá abalar a economia do país de maneira profunda.

A desigualdade social que vimos em Pequim, talvez a principal bandeira que o Comunismo/Socialismo combatem (combatiam) em seus princípios fundamentais, foi a imagem de um país totalmente subdesenvolvido. Riqueza e miséria convivem lado a lado em Pequim. Sim, a segunda maior economia do mundo é um país subdesenvolvido em quase todos os aspectos sociais!

Desigualdade Social na China
Desigualdade Social

Shopping Beijing Market

A corrupção em diversos níveis é também relatada como um dos problemas chineses, apesar de não termos presenciado nada nesse sentido.

Existe forte censura de imprensa, a ponto das emissoras em seus noticiários terem umas poucas notícias para veicular. Sofremos com as Proibições de acessos a internet – Google, Facebook, Instagram, Netflix, entre outros. Apesar de logo termos descoberto como furar a “grande muralha digital” da China, preferimos ficar “pianinhos” e não cometer nenhum delito nesse pobre país, onde acessar o Google é crime!

Nosso apartamento em Pequim
Nosso apartamento em Pequim e o noticiário limitado…

Um outro atentado contra a liberdade individual é a Política do Filho Único que perdurou por 35 anos para a grande maioria dos moradores das áreas urbanas (Hong Kong foi uma das raras exceções). Essa política acabou de ser alterada (na virada desse ano – 01/01/2016) para permitir 2 filhos por casal. Uma proibição bastante infeliz, para falar o mínimo. Uma política que levou, entre outras atrocidades, um aumento gigantesco no número de abortos, principalmente de meninas, e também, na impossibilidade de pagar um aborto, no abandono das recém-nascidas. Essas últimas ficaram conhecidas por missing girls, a maioria vivendo em orfanatos superlotados, sem identidade e sem possibilidade de serem adotadas, pois “gastariam” a cota de 1 filho por casal…

Genocídio a parte, imagina uma geração inteira de filhos únicos, a maioria homens!? Como seria uma sociedade dessas!? Pois então, isso se encontra na China…

Além dos impactos demográficos e econômicos (muitos ainda desconhecidos ou sendo estudados) o que mais me impressionou foi o impacto dessa política na cultura chinesa, baseado no que vimos em Pequim. O egoísmo impera em Pequim e as consequências disso são diversas. Existe até um termo que foi criado para tentar sintetizar esse comportamento: Little Emperor (Pequenos Imperadores) – refere-se a essa geração forçada de filhos únicos e a consequência de nenhum deles ter tido irmãos como referência. Eles não têm o menor traquejo em como viver em comunidade, em como conviver em sociedade…

Claro que estou generalizando e toda generalização tem suas exceções.

Mas a grande maioria dos chineses que tivemos contato fazem coisas que chocam praticamente qualquer pessoa de outra origem.

Gôndola do Supermercado na China
Gôndola do Supermercado: animais vivos para colocar no carrinho…

Começa pelo básico: uma fila. E isso se aplicou a praticamente todas as filas que enfrentamos na China. O bom sistema de metro e trens de Pequim é subutilizado pelo simples fato da lei “salve-se quem puder” ser a que prevalece. Nem chegamos a pegar metro congestionado, mas a sensação ao ver as portas do vagão se abrindo era de que seriamos esmagados entre os chineses que saiam do trem com aqueles que queriam entrar ao mesmo tempo.

Se fosse apenas isso, tudo bem! Mas em praticamente toda interação turística que tivemos com os chineses houve alguma tentativa de levar vantagem por parte deles. A começar pela ausência de preço da maioria das coisas turísticas. Aí eles geralmente chutam o valor para mais do dobro desejado e começa uma negociação num tom que sempre parece uma ameaça. Passei até por uma quase agressão dentro do Silk Market (tradicional mercado das sedas chinesas) ao ir simplesmente perguntar o preço de uma blusa…

Na nossa chegada no aeroporto o guichê oficial de taxis queria que pegássemos 2 taxis para ir para nosso apartamento alegando que teria que ter um taxi somente para as malas. E ao comentarmos que não havia necessidade, pois as nossas malas caberiam no porta-malas, eles simplesmente nos deixaram na mão e tivemos que ir diretamente na rua nos virar para pegar um táxi. Aliás, os taxistas não devolvem troco em Pequim…

Muralha!!
Um sufoco para conseguir chegar nessa maravilha do mundo…

Enfim, as tentativas de tirar vantagem de nós, mesmo tendo um bebê no colo, foi a grande constante na nossa experiência na China. Talvez o episódio que eu mais me revoltei foi no caminho para a Grande Muralha da China. Pegamos um ônibus em Pequim que demorava cerca de 2,5h viagem até um ponto onde tínhamos que pegar ainda uma van para chegar na entrada da muralha. Porém, vários chineses “pega-turistas” ficam esperando em algumas paradas do ônibus antes da parada correta, entram dentro da lotação (ou batem na janela) praticamente tentando arrancar os turistas ocidentais para suas vans que levam, a preço de ouro, o turista até a entrada da muralha. E o turista-alvo do ônibus que estávamos era justamente eu. Na primeira tentativa de malandragem pra cima de mim fui perguntando para os outros passageiros até chegar a perguntar para o motorista se era mesmo para descer ali e todos faziam sinal de que poderia descer ali… Até que no meio dessa indecisão apareceu uma boa alma chinesa e discretamente acenou para que eu não descesse. Vi a reação do pilantra ao notar que fomos avisados do golpe, olhando o nosso salvador chinês através do vidro do ônibus como que ameaçando-o. A passividade e conivência dos outros chineses foi o que mais me chocou nesse episódio. Um ônibus inteiro vendo um casal de turistas com um bebê no colo prestes a serem extorquidos e escolherem apoiar o malandrão!? Foi a pá de cal na nossa tentativa de olharmos a cultura chinesa com um olhar neutro.

Dois outros pontos da cultura chinesa que nos causaram espanto foi o costume da maior parte da população em cuspir no chão e das crianças até uns 8 anos de idade estarem liberadas para fazer xixi na rua…

Xixi na Praça
Xixi em plena Praça da Paz Celestial…

Imagina que você está andando na Av. Paulista em São Paulo e metade das pessoas que caminham por ela, incluindo mulheres, cospem no chão? Além das cuspidas, você que está ali na Av. Paulista vê as crianças tranquilamente fazendo xixi no meio da multidão… muitas usam inclusive roupinhas que deixam as genitálias de fora para facilitar esse processo. Isso mesmo, macacões que tem um buraco nas partes baixas.

Macacão das crianças pra facilitar o processo na rua...
Macacão das crianças pra facilitar o processo na rua…

Digamos que higiene não é o forte deles…

A milenar cultura chinesa está atualmente algumas dezenas de anos atrasada em tudo o que envolve uma sociedade…

E a atual Ditadura, grande responsável por esse atraso, parece que ainda irá perdurar por mais outras dezenas de anos… a maioria da população realmente parece satisfeita com a situação atual que se encontram.

Mas o fato é que é uma questão de tempo para que a democratização da informação e a internacionalização/contato com os outros países mudem esse quadro…

E aí teremos um grande problema, um problema com dimensões chinesas: a longo prazo a China é uma bomba ambulante!

Possui o maior exército do mundo e, o pior, bombas atômicas que não necessitam de grandes aprovações internas para serem usadas. Quando a população decidir derrubar o governo, pouca ajuda externa poderá ser dada a fim de evitar o uso desesperado de bombas atômicas por aqueles líderes que estarão fortemente ameaçados de perder não somente o poder mas sua liberdade quando, depois de depostos, forem julgados pelas atrocidades cometidas aos seus conterrâneos.

A combinação da forma como o Partido Comunista da China governa o país com a forma como os chineses vivem em sociedade me fazem não querer retornar nunca mais a esse país, que deve ficar marcado para mim como uma das piores sociedades do Planeta para se viver.

 

Para mais detalhes da nossa experiência em Pequim clique aqui. E sobre Pequim com bebê, contamos tudo no ChicoOnTheRoad.

Aliás, Chico fez sucesso em Pequim!
Aliás, Chico fez sucesso em Pequim!

1 Comentário Pequim, China
Ditadura Sim, Comunismo Não

  1. Pedro 11 de junho de 2016 às 04:54

    A pior sociedade para se viver ?? Pois para mim é o Brasil onde eu não podia sair na rua e era assaltado, Aqui na China eu me sinto livre e faço o que quiser o governo nunca me incomodou a não ser com burocracias mas tipo nada incomum, A não ser a paranoia do governo de espionagem essa é demais , a cidade onde moro não é muito poluida, Jamais moraria em Pequim por motivos óbvios alem de ser uma cidade carissima.

    Responder

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *