Venezuela
O fracasso da Revolução Bolivariana

Para quem diz que o Brasil está rumando para se tornar uma Venezuela, tenho uma “boa” notícia: isso não irá acontecer! Não porque nós estamos saindo do buraco que fomos colocados nesses últimos anos, mas pelo simples motivo que a Venezuela está numa situação que nenhum país na atualidade sonha em chegar perto. Nem se realmente tentarmos com muito afinco conseguiremos replicar a aberração política e, principalmente, econômica a qual nosso vizinho do noroeste se meteu.

“Se meteu” é uma maneira de dizer, pois essa situação tem um grande responsável, o pai da Revolução Bolivariana: o recém falecido Hugo Chávez!

Chávez assumiu em 1999 e se aproveitou da sua popularidade na época para já reformar a Constituição da Venezuela (aliás, mesmo antes de concluir a nova constituição ele já havia conseguido instituir uma nova corte suprema, tomando controle logo de cara do poder Judiciário).

Com a nova Constituição aprovada ainda em 99 ele aumentou o mandato de presidente para 6 anos com infinitas reeleições, ganhou poder para criar leis sobre os direitos dos cidadãos sem ter que passar pela assembléia nacional, ganhou soberania sobre todas as questões da economia e das finanças do país, trouxe para seu comando o exército e sobrepôs os militares como a polícia maior da Venezuela, entre outras coisas. Até aqui, alguma semelhança com uma ditadura!?!

Republica Bolivariana de Venezuela
Nova Constituição e novo nome para o país. Poderes plenos ao Comandante Supremo…

E para demonstrar todo o seu ego fez questão de mudar o nome do país, que passou a se chamar República Bolivariana da Venezuela… Ainda sobre o ego de Chávez, um parêntesis curioso para mostrar mais um de seus caprichos: em um dia qualquer de 2007, Chavéz decidiu que o horário da Venezuela deveria ser diferente dos demais países e decretou um ajuste de meia hora no horário oficial… Isso mesmo, dessa forma, a diferença entre o horário de Brasília e Caracas, por exemplo, é de 2h30min.

A Venezuela é um dos maiores produtores de petróleo do planeta e isso a coloca numa situação naturalmente favorável em relação a outros países do mundo. E, claro, foi justamente aí que Chavéz viu a grande oportunidade para dar sustentação à sua “Revolução”!!!

Quando Chavéz assumiu a presidência do país a Venezuela estava em franco movimento de abrir seu mercado, atraindo o capital estrangeiro para investir em diversos setores, incluindo o petrolífero. Mas, visando aumentar a arrecadação do governo, ele praticamente nacionalizou o petróleo, fazendo com que a estatal PdVSA tivesse no mínimo 51% de participação em qualquer negócio que envolvesse o principal produto da Venezuela e subiu extraordinariamente os royalties.

Em pouco espaço de tempo a arrecadação do governo aumentou absurdamente e, com o dinheiro do petróleo, ele passou a subsidiar alimentos, remédios e diversos programas sociais assistencialistas. Ele foi “engordando” tanto o governo que passou a gastar mais do que arrecadava, e a Venezuela arrecadou muito em quase todos os 14 anos em que ele foi presidente.

Ele estabeleceu controle de preços sobre os produtos e com isso espantou as indústrias estrangeiras que passaram a ter prejuízo na Venezuela. Os empresários locais também não conseguiram sustentar os preços oficiais estabelecidos e tiveram que fechar suas portas. Sendo assim, toda a indústria nacional se resumiu a um único produto: Petróleo. Tudo o que é consumido na Venezuela passou a ser importado. Até mesmo parte da gasolina a Venezuela tem que importar, pois a Revolução Bolivariana não investiu decentemente nem mesmo em refinarias para transformar o petróleo bruto em produto final… E ainda assim eles “distribuem” gasolina para a população. Encher o tanque de um carro custa menos de 40 centavos de dólar. O preço estabelecido (lembre-se que o preço é controlado) é tão baixo que as motos não pagam para abastecer, visto que para o tanque da moto o valor cobrado seria muito pequeno.

Claramente, esse cenário não poderia dar certo no longo prazo. Mas, com o bom preço do barril de petróleo no mercado internacional em grande parte do começo desse século, e a propaganda governamental maquiando os problemas e censurando os críticos, Chavéz se manteve no poder até sua morte em 2013, sendo que ainda havia sido recém-eleito presidente para mais 6 anos.

Câmbio, talvez o maior erro da Revolução…

Milionario na Venezuela
Trocando 100 dólares no mercado negro e se sentindo milionário!!!

A Venezuela atualmente possui 4 tipos de câmbio (3 oficiais e 1 câmbio negro). Para tentar simplificar como os economistas bolivarianos queimaram toda a reserva da Venezuela e jogaram sua população em uma crise de escassez sem precedentes, vou me ater na comparação dos dois tipos de câmbio extremos. O câmbio oficial utilizado para converter importações de alimentos e medicamentos está em torno de 6,30 Bolívares para cada dólar. Em final de agosto de 2015, quando estávamos lá, o câmbio negro (que no fundo é o câmbio correto/real), apesar de não autorizado, é utilizado por TODOS os venezuelanos e estrangeiros, e estava em 680 bolívares para cada dólar. Isso quer dizer que, por exemplo, quando o governo da Venezuela autoriza uma importação de frango da Sadia vinda do Brasil (vamos supor que o quilo de frango custe 1 dólar), o importador venezuelano paga apenas o equivalente a 6,30 bolívares para cada quilo de frango e o governo da Venezuela subsidia o restante (a diferença entre 6,30 e 680 bolívares). Ou seja, o governo venezuelano está subsidiando mais de 99% do valor de todos os alimentos e medicamentos que a sua população consome!!!

Bom, até quando o governo conseguia sustentar essa situação para todas as importações, a população menos antenada no tamanho do problema que isso poderia gerar continuava apoiando “a Revolução”.

Acontece que o dinheiro do governo acabou… E o sucessor Nicolás Maduro tem um gigantesco problema nas mãos!!!

Ele não tem mais reservas para arcar com todas as importações. Dessa forma, hoje entram menos produtos do que a população necessita para consumir. Os preços em bolívares estão oficialmente controlados, sendo proibido fazer venda acima da tabela. Mas com a falta de todo tipo de produto abre-se mais uma brecha para outro mercado negro. Para você ter uma idéia, o piloto de avião que conhecemos em Los Roques anda com um rolo de papel higiênico no bolso! Nesse caso não é para vender e sim para garantir que não vai faltar quando ele necessitar usar esse item… Cômico se não fosse trágico…

As pessoas com mais poder aquisitivo voam constantemente para fora do país para abastecer suas casas dos produtos mais básicos.

Na prática a hiperinflação (não medida pelos órgãos oficiais) toma conta do país e visto que a moeda está desvalorizando cada vez mais rapidamente, os venezuelanos tentam guardar seus salários em dólares. E essa corrida por dólares faz com que esse ciclo vicioso só aumente, pressionando ainda mais a desvalorização dos bolívares.

pagando uma conta na Venezuela
Pagando uma conta qualquer em Los Roques, sempre com um chumaço de dinheiro.

E o governo faz de conta que não vê… Tanto é que a maior nota emitida pelo Banco Central da Venezuela é de 100 bolívares, o equivalente na prática a 15 centavos de dólar (o papel moeda mais alto!). A bizarra consequência disso, é a foto que ilustra esse post: quando você vai trocar uma nota de 100 dólares por bolívares você recebe uma maleta de dinheiro…

Em Los Roques um garçom nos abordou querendo converter conosco o salário que acabara de ganhar em bolívares para dólar. Para ter uma noção do quanto a moeda deles não está valendo nada, um salario médio de um engenheiro venezuelano está atualmente entre 60 a 90 dólares por mês (convertido pelo câmbio negro)… Ou seja, os venezuelanos ainda por cima estão “presos” financeiramente em seus país!

Mesmo assim, 20% da classe média e alta da Venezuela (oposição ao governo) deixaram o país nos últimos anos, começando a vida praticamente do zero em outro país. No próprio embarque no aeroporto de Caracas, presenciamos uma família, fazendo check-in na nossa frente, abandonando a Venezuela.

Violência em nível crítico

Outra consequência da escassez é, naturalmente, a violência. Não tivemos nenhum incidente, mas também fomos preparados. Dormimos uma noite em Caracas num hotel ao lado do aeroporto com translado já organizado pelo próprio hotel. Mas todos os venezuelanos ou brasileiros que moram na Venezuela, sem exceção, nos alertaram para a imensa onda de violência que está acometendo Caracas e outras cidades da Venezuela. Saques a supermercados são extremamente frequentes, até por uma questão de sobrevivência. E, uma vez tendo roubado estabelecimentos, migrar para assaltos a pessoas é um pulo.

Corrupção extrema

Ainda assim existem ricos na Venezuela… Mas isso é privilégio de alguns funcionários públicos e/ou empresários que trabalham com importação. E, em ambos os casos, esses ricos necessitam se sujeitar à corrupção (ou são corruptos por natureza mesmo). Os funcionários públicos escolhem quem vai poder importar com o subsídio de mais de 99% e em troca recebem uma boa gratificação pelo carimbo de liberação.

A mamata da importação é tão absurda que os importadores muitas vezes fazem o “esquema” da importação e depois nem se dão ao trabalho de vender a mercadoria. Mesmo com a escassez e pessoas passando fome, muitas vezes são encontrados alimentos em armazéns com data de validade vencida. E tem empresa brasileira renomada metida nesse rolo até o pescoço. Ao menos é o que contam alguns venezuelanos que conhecemos.

Por falar em empresa brasileira, outra coisa que é falada por lá é que a famosa refinaria Abreu e Lima, um dos focos do escândalo da Lava Jato, feita para refinar Petróleo da Venezuela e que ainda por cima custou mais de 10 vezes o bilionário orçamento inicial, foi paga em grande parte pela própria Venezuela, mas pelo visto esse dinheiro não chegou ao seu destino final…

Refinaria Abreu e Lima
Refinaria Abreu e Lima, superfaturamento e corrupção por todos os lados (Venezuela + Brasil)

Sim, existem muitas semelhanças com o que foi feito na Venezuela e com o que estamos vivenciando ultimamente no Brasil, infelizmente. Mas ainda assim o caminho é muito longo entre a crise brasileira e a devastação completa pela qual está passando o nosso vizinho, que em algum momento terá que “recomeçar do zero”. Desejo muito que esse início de reconstrução esteja próximo.

Adeus à Revolução Bolivariana!!! Já vai tarde, tarde demais…

Para mais detalhes da nossa passagem por lá veja aqui!

4 Comentários Venezuela
O fracasso da Revolução Bolivariana

  1. Bruno Zanza 18 de outubro de 2015 às 19:22

    Irado o texto!!!!

    Mas ainda chegamos lá Rafinha!!!

    Responder
    1. Rafael Menezes 21 de outubro de 2015 às 12:49

      Zanza,
      Valeu pelo comentário!!! Vindo de um cara extremamente politizado como vc, fico muito feliz mesmo!!!
      Sobre seu pessimismo de que “ainda chegamos lá” assumo que vc acredita que ainda teremos alguns governos do PT pela frente, creio que precisaríamos de mais uns 3 mandatos sucessivos, além desse que ainda está no começo, para conseguirmos alcançar essa “proeza” de realmente virmos a nos equiparar com a Venezuela que o Chavéz deu de herança para “seu povo”… Vc está nesse nível de descrença, certo!?
      O impossível não existe, mas é muito, muito improvável!!
      De qualquer maneira o nosso país vai mal, muito mal, e ainda vai piorar (espero que por no máximo mais 3 anos até o final desse mandato)…
      Um abraço!!!

      Responder
  2. viviane 18 de outubro de 2015 às 23:55

    Parabéns, claro, conciso, e realista. Pobre povo venezuelano.

    Responder
    1. Rafael Menezes 21 de outubro de 2015 às 12:57

      Olá Vivi!!!
      Muito obrigado pelos elogios!!!
      Realmente me debrucei muito para o texto não ficar longo (pois o assunto poderia ir longe), mas ao mesmo tempo queria passar as coisas que vimos e ouvimos das pessoas com quem cruzamos, buscando dar uma boa idéia do que estão passando os venezuelanos.
      Obrigado por reconhecer o trabalho!!! 🙂
      Um beijo!

      Responder

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